Expansão do ensino a distância privado amplia demanda por financiamento estruturado, avalia ID CTVM

Diego Velázquez
6 Min de leitura
ID CTVM

Matrículas em cursos a distância já superam as presenciais no Brasil, com o setor privado concentrando mais de 95% dos alunos e impulsionando investimentos em plataformas e conteúdo

O ensino a distância consolidou uma mudança estrutural na educação superior brasileira. Em 2024, pela primeira vez na história, as matrículas em cursos a distância superaram as do ensino presencial, alcançando 50,7% do total, um salto de mais de 150% em relação a uma década antes. O setor privado concentra praticamente a totalidade dessa expansão, com 95,9% das matrículas de graduação a distância hoje em instituições particulares, que somam mais de 5,1 milhões de alunos distribuídos por 61% dos municípios brasileiros. Esse crescimento acelerado tem elevado a necessidade de capital para investimento em plataformas tecnológicas, produção de conteúdo e expansão de polos de apoio presencial, ampliando o espaço para estruturas de crédito privado dedicadas ao setor educacional, tema que a ID CTVM acompanha como parte do crescimento do crédito estruturado para a economia real.

Modelo de negócio muda o perfil de investimento necessário

Diferentemente do ensino presencial tradicional, cujo investimento se concentra fortemente em infraestrutura física de campus, o modelo de ensino a distância direciona capital principalmente para tecnologia de plataforma, produção de conteúdo audiovisual, inteligência artificial aplicada a tutorias personalizadas e uma rede mais enxuta de polos de apoio presencial espalhados pelo país. Essa mudança no perfil de investimento altera também o tipo de ativo disponível como lastro de operações de crédito privado, com recebíveis de mensalidades recorrentes de uma base de alunos geograficamente pulverizada, tornando-se o principal ativo financeiro gerado por instituições de ensino a distância.

Segundo Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, o crescimento do ensino a distância privado cria uma nova geração de recebíveis educacionais com características próprias.

“São contratos de mensalidade com ticket médio geralmente menor do que o do ensino presencial, mas com uma base de alunos muito mais pulverizada geograficamente. Isso muda a forma como se estrutura o risco de crédito desse tipo de carteira”, avalia o executivo.

Taxa de evasão exige modelagem de risco específica

Um dos principais desafios na estruturação de crédito lastreado em recebíveis de ensino a distância é a taxa de evasão do setor, que em 2024 atingiu 41,6%, quase o dobro da taxa observada no ensino presencial. Fundos e gestoras especializadas em financiar instituições de ensino a distância precisam incorporar esse padrão de evasão em seus modelos de precificação de risco, ajustando taxas e estruturas de garantia para refletir a maior volatilidade da base de alunos em comparação com modelos de ensino presencial tradicional.

A ID CTVM é habilitada pela CVM e pela ANBIMA para exercer administração fiduciária, custódia qualificada e controladoria de fundos estruturados, incluindo veículos voltados ao financiamento de instituições de ensino. A companhia opera ecossistema de portais integrados por APIs, capaz de processar volumes elevados de pequenas movimentações típicas de recebíveis de mensalidades educacionais pulverizadas entre milhares de alunos.

Setor deve seguir demandando capital para expansão

Para Balassiano, o ritmo de expansão do ensino a distância deve continuar exigindo capital significativo nos próximos anos.

“Ampliar o número de polos, melhorar a plataforma tecnológica e investir em ferramentas de retenção de alunos exige capital contínuo. Instituições que conseguem acessar crédito estruturado a custos competitivos ganham vantagem competitiva relevante nesse mercado”, pondera o diretor da ID CTVM.

Diversificação geográfica reduz exposição regional

A dispersão da base de alunos de instituições de ensino a distância por centenas de municípios brasileiros, muitas vezes em regiões com dinâmicas econômicas distintas entre si, contribui para reduzir a exposição da carteira de recebíveis a choques localizados em uma única região do país. Diferentemente de uma instituição de ensino presencial tradicional, cuja base de alunos costuma estar concentrada em um raio geográfico limitado ao redor do campus físico, uma instituição de ensino a distância consolidada tende a apresentar uma distribuição de risco mais próxima da observada em carteiras de varejo pulverizadas nacionalmente, característica que gestoras especializadas já incorporam à modelagem de risco desse tipo de operação.

Financiamento deve acompanhar a maturidade do setor

A expectativa entre especialistas é que o financiamento estruturado para instituições de ensino a distância continue crescendo nos próximos anos, acompanhando a expansão contínua das matrículas e a necessidade permanente de investimento tecnológico do setor. Para administradores fiduciários, a capacidade de modelar corretamente o risco de carteiras com alta pulverização de alunos e taxas de evasão específicas do ensino a distância deve seguir como um diferencial relevante na estruturação desse tipo de operação.

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