Tecon Santos 10: o que está em jogo no maior leilão portuário da história do Brasil

Diego Velázquez
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Com R$ 6,4 bilhões em investimentos previstos, o novo terminal de contêineres pode transformar Santos e a logística nacional.

A cidade de Santos tem no porto sua coluna vertebral econômica, e nos próximos meses esse vínculo pode se tornar ainda mais profundo. O governo federal tenta viabilizar ainda em 2026 o leilão do Tecon Santos 10, considerado o maior empreendimento portuário já licitado no país. Para que isso aconteça, o Ministério de Portos e Aeroportos precisa publicar o edital entre julho e agosto, prazo apontado pelo ministro Tomé Franca como condição mínima para que o certame ocorra dentro do calendário previsto. O projeto prevê R$ 6,4 bilhões em investimentos e a construção de quatro novos berços de atracação, ampliação de pátios de armazenagem, aquisição de equipamentos de movimentação e implantação de sistemas de automação. A dúvida que domina o debate em Santos é direta: o leilão sai mesmo esse ano, ou os entraves burocráticos vão atrasar mais uma vez um projeto esperado há mais de uma década?

O que é o Tecon Santos 10 e por que ele importa tanto para a cidade

O Porto de Santos já é responsável por aproximadamente 29% de todo o comércio exterior brasileiro, segundo entidades do setor de logística que assinaram manifesto em favor do leilão. Mesmo com essa posição de destaque, o complexo santista opera em nível elevado de capacidade, o que cria pressões crescentes sobre a logística nacional, em especial nas cadeias do agronegócio, que utilizam Santos como principal porta de saída para exportação de soja, milho e outros produtos. O Tecon Santos 10 surge como resposta a esse gargalo. Com a nova estrutura em operação, a capacidade total do porto deve saltar para 9 milhões de TEUs por ano, o que representa um crescimento de 50% sobre a capacidade atual. Com esse volume, o Porto de Santos poderia subir do 48º para o 15º lugar no ranking mundial de movimentação de contêineres, de acordo com projeções do próprio Ministério de Portos e Aeroportos.

Para a cidade de Santos, os impactos vão além das estatísticas de comércio exterior. O projeto tem potencial para gerar 2,5 mil empregos diretos e 5 mil indiretos ao longo das obras, segundo estimativas do governo federal divulgadas ainda em 2025. Para os santistas que trabalham no setor portuário ou em atividades ligadas a ele, a pergunta vai além do leilão: o que muda no cotidiano da cidade quando o terminal entrar em funcionamento? A expectativa do setor produtivo é de uma valorização da cadeia de serviços portuários local, com reflexos em áreas como transporte, logística, manutenção industrial e prestação de serviços especializados. Santos tem histórico de adaptar sua economia ao ritmo do porto, e o Tecon 10 pode representar a maior oportunidade de modernização desse ciclo em décadas.

Por que o leilão enfrenta tantos obstáculos e o que pode mudar

O caminho até a assinatura do contrato do Tecon Santos 10 está longe de ser linear. Após anos de espera, o projeto encontrou um novo obstáculo em maio de 2026: o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que todos os processos de desestatização que passaram por mudanças estruturais na modelagem precisam retornar para apreciação da corte antes de seguir adiante. A decisão impacta diretamente o Tecon Santos 10, cuja modelagem estava sendo revisada pelo Ministério de Portos e Aeroportos em conjunto com a Casa Civil, conforme noticiado pela CNN Brasil e pelo portal Canal Rural.

O impasse central gira em torno de quem pode participar do leilão. O modelo original analisado pelo TCU em 2025 previa restrição inicial à participação de grandes armadores como MSC e Maersk, permitindo a entrada desses players apenas em uma segunda rodada, caso não houvesse propostas de novos operadores. A Casa Civil, por sua vez, passou a defender uma participação mais ampla, com a possibilidade de que armadores já atuantes em Santos possam concorrer diretamente, desde que se comprometam a vender as operações existentes no porto caso vençam. Empresas de navegação contestaram as restrições na Justiça, argumentando que elas reduzem a competição. Entidades representativas de logística, comércio exterior, agronegócio e infraestrutura publicaram manifesto pedindo “ampla concorrência e condições iguais de participação”, segundo o Jornal de Brasília. A resolução desse debate vai determinar tanto o cronograma quanto o perfil do futuro operador do terminal.

O que os moradores de Santos podem esperar com a chegada do Tecon 10

Para além dos números e das disputas jurídico-regulatórias, a população de Santos tem razões concretas para acompanhar esse processo de perto. O crescimento da capacidade portuária traz consigo desafios urbanos já conhecidos pelos moradores: o aumento no fluxo de caminhões é um dos problemas estruturais da cidade, que recebe diariamente milhares de veículos pesados e sofre com a pressão sobre o sistema viário. Esse cenário foi debatido no Fórum de Mobilidade Urbana realizado pela Prefeitura de Santos, onde o presidente da CET-Santos, Antônio Carlos Silva Gonçalves, reconheceu que as limitações físicas da cidade reduzem as possibilidades de intervenções estruturais e exigem soluções tecnológicas para garantir fluidez no trânsito, conforme registrado no portal da Prefeitura de Santos.

O próprio governo federal tem associado o Tecon Santos 10 a outro projeto estruturante para a cidade: o túnel Santos-Guarujá, com investimentos estimados em cerca de R$ 6 bilhões, que conectaria as duas cidades e aliviaria o tráfego na balsa. Segundo o ministro Tomé Franca, os recursos para esse projeto já foram estruturados pelo governo federal, por meio da Autoridade Portuária de Santos, e pelo governo do estado de São Paulo, com financiamento do Banco do Brasil. A combinação dos dois projetos poderia representar uma transformação profunda na mobilidade e na economia de Santos nas próximas décadas. A cidade, acostumada a esperar, aguarda agora a publicação do edital com atenção redobrada.

O Tecon Santos 10 é muito mais do que um leilão portuário. É uma aposta de longo prazo na capacidade do Brasil de modernizar sua infraestrutura e de Santos de continuar sendo o coração logístico do país. Os próximos meses vão definir se o projeto finalmente sai do papel ou se permanece no horizonte por mais algum tempo. O Jornal de Santos vai acompanhar cada desdobramento desse processo.

Fontes: CNN Brasil | Brasil 247 | Canal Rural | Conjur | Prefeitura de Santos

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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