Segurança em Santos: o que dizem os números reais de criminalidade e por que a Baixada ainda preocupa

Diego Velázquez
7 Min de leitura

Com quedas em furtos e roubos e aumento nas ações policiais, Santos vive um cenário contraditório que levanta dúvidas sobre o modelo de segurança adotado.

Santos registrou, no primeiro trimestre de 2026, uma queda expressiva em vários indicadores criminais. O roubo de veículos caiu 60% na comparação com o mesmo período de 2025. Os roubos em geral recuaram 40,36%, passando de 498 para 297 ocorrências. O homicídio doloso foi reduzido à metade, de quatro para dois casos, segundo dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-SP) divulgados pela Prefeitura de Santos. Em paralelo, a Guarda Civil Municipal aumentou sua produtividade e o programa Guardiã Maria da Penha, ativo há sete anos na cidade, segue monitorando mulheres em situação de risco. São números que parecem indicar um caminho positivo. Mas existe uma contradição relevante nesse cenário: enquanto os indicadores tradicionais de criminalidade caem dentro da cidade, a Baixada Santista como um todo registrou, no primeiro bimestre de 2026, um aumento de 283% nas mortes provocadas por policiais militares. A pergunta que paira sobre Santos é inevitável: melhora para quem?

O que os dados de criminalidade em Santos realmente mostram

Os números divulgados pela Prefeitura de Santos compõem um quadro que, à primeira vista, é encorajador. Além das quedas em roubos e furtos, o roubo de veículos atingiu o menor patamar desde o início da série histórica, conforme destacou a própria SSP estadual. O latrocínio, que combina roubo e morte, zerou nos dois períodos comparados. Esses dados refletem, em parte, o aumento do efetivo da Guarda Civil Municipal e o avanço de programas integrados de segurança pública na cidade. O programa Guardiã Maria da Penha, por exemplo, atendeu 274 mulheres em 2025 e segue ativo em 2026, com visitas domiciliares e contato contínuo com vítimas de violência doméstica para monitorar o cumprimento de medidas protetivas.

Outro avanço concreto foi o lançamento do sistema Registro Integrado de Evento de Segurança Pública para Violência Doméstica (Riesp-VDM), que Santos foi a primeira cidade do estado a testar, em abril de 2026. Segundo reportagem do portal Costa Norte, o sistema permite que a Polícia Militar registre o boletim de ocorrência no local do crime, com encaminhamento automático para a Delegacia de Defesa da Mulher Online. Na primeira semana de testes, sete ocorrências foram formalizadas pelo novo sistema, e seis já contavam com pedido de medida protetiva. A SSP prevê expandir a ferramenta para todo o estado a partir de maio. Santos, portanto, serve de laboratório para uma das principais iniciativas de combate à violência contra a mulher no estado de São Paulo.

A contradição da Baixada: queda no crime e alta nas mortes por policiais

O dado que mais incomodou especialistas e jornalistas de segurança pública em 2026 veio de um estudo publicado pelo Jornal de Brasília e pelo portal Acessa.com: a Baixada Santista registrou 23 mortes causadas por policiais militares no primeiro bimestre do ano, ante seis no mesmo período de 2025, alta de 283%. As mortes se concentraram em Guarujá, Santos e Cubatão. O período comparado, sem nenhuma megaoperação específica como as anteriores Escudo e Verão, que em 2023 e 2024 deixaram um saldo oficial combinado de 84 mortos pela PM, se aproximou dos níveis daquelas ações letais.

A Secretaria de Segurança Pública do governo Tarcísio de Freitas defendeu os números afirmando que “intensificou o enfrentamento à criminalidade violenta e organizada, com a realização de operações de alta complexidade e risco”, e reforçou que os indicadores tradicionais de crime na área de abrangência do Deinter-6, em Santos, apresentaram quedas. A divergência entre os dois tipos de dado, queda no crime convencional e alta nas mortes policiais, coloca Santos no centro de um debate nacional sobre o modelo de segurança pública adotado no litoral paulista. Em março de 2026, a Operação Impacto Morro São Bento mobilizou 302 policiais militares, 82 viaturas, 13 drones, cinco cães e uma aeronave para combater o tráfico de drogas no morro do mesmo nome, segundo a Agência SP.

O que esperar do cenário de segurança em Santos nos próximos meses

Com as eleições gerais marcadas para outubro de 2026, o tema segurança pública tende a ganhar ainda mais protagonismo no debate político santista. O prefeito Rogério Santos, reeleito em 2024 com 53,27% dos votos válidos no segundo turno, segundo dados do Poder360, iniciou seu segundo mandato com um orçamento municipal de R$ 5,8 bilhões, que destina R$ 162,3 milhões para a pasta de Segurança, aumento de 11% em relação ao período anterior. A Prefeitura tem apostado em programas integrados que combinam policiamento preventivo e políticas sociais, a exemplo do Orçamento Participativo de 2026, que elegeu projetos voltados a crianças atípicas, dança e cultura comunitária em bairros periféricos.

A tensão entre esses dois eixos, repressão e prevenção, será determinante para a percepção da população sobre a segurança na cidade. Os dados positivos nos indicadores tradicionais são reais e verificáveis, mas o alto número de mortes em ações policiais na região cria um cenário que exige transparência, fiscalização e debate público qualificado. Santos não é uma cidade segura ou insegura de forma simplificada: é uma cidade em transformação, com avanços concretos em alguns indicadores e tensões sérias em outros. Entender essa complexidade é condição mínima para qualquer debate honesto sobre o futuro da segurança pública na cidade.

Fontes: Prefeitura de Santos – Criminalidade | Costa Norte – Riesp-VDM | Jornal de Brasília – Mortes PM |

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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