Depois de mais de setenta anos como principal ferramenta de rastreamento do câncer de colo do útero, o exame Papanicolau começou, em 2024, a ser gradualmente substituído no Sistema Único de Saúde por um teste molecular capaz de identificar diretamente o material genético do HPV oncogênico. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues acompanha essa transição com atenção, já que ela representa uma das mudanças mais relevantes em rastreamento populacional de câncer implementadas no Brasil nos últimos anos, ainda pouco compreendida pela maioria das mulheres que seguem sendo convocadas para o exame de rotina.
- Por que o teste molecular é considerado superior ao Papanicolau tradicional?
- Como está sendo feita a transição entre os dois métodos de rastreamento no Brasil?
- O que muda na faixa etária e na frequência recomendada de rastreamento?
- Por que essa mudança de protocolo importa tanto para a saúde pública brasileira?
O novo exame, denominado DNA-HPV, detecta a presença do vírus antes que qualquer mudança celular ocorra. A Organização Mundial da Saúde já havia recomendado esse método como superior para rastreamento primário há alguns anos. Compreender o motivo dessa mudança, como ela difere do exame tradicional e o que muda na prática para quem realiza o acompanhamento ginecológico de rotina, ajuda a elucidar uma transformação silenciosa, porém significativa, na prevenção do câncer de colo do útero no país.
Por que o teste molecular é considerado superior ao Papanicolau tradicional?
O Papanicolau depende da análise visual de células colhidas do colo do útero por um profissional treinado, um processo sujeito a variação de interpretação humana que pode gerar tanto resultados falso-positivos quanto falso-negativos. Já o teste de DNA-HPV é automatizado e detecta diretamente o material genético do vírus responsável por mais de 99% dos casos da doença, apresentando uma precisão consideravelmente maior: quando o resultado é negativo, a chance de a mulher não desenvolver lesão precursora ou câncer nos cinco anos seguintes chega a mais de 99%.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, essa diferença de precisão é o que permitiu uma mudança até então impensável na rotina de rastreamento: espaçar o intervalo entre coletas de três para cinco anos quando o resultado é negativo, sem perda de segurança para a paciente. Para ele, essa alteração representa também um alívio prático relevante para mulheres que hoje enfrentam dificuldade de acesso recorrente a consultas ginecológicas, já que reduz a frequência necessária de retorno ao serviço de saúde.
Como está sendo feita a transição entre os dois métodos de rastreamento no Brasil?
A implementação não acontece de uma vez em todo o território nacional, mas de forma gradual, estado por estado, à medida que cada rede de saúde local se estrutura para incorporar o novo teste molecular. Nos locais onde o rastreamento com DNA-HPV ainda não chegou, continuam valendo as regras tradicionais baseadas na citologia, o que significa que, por um período de transição, o Brasil convive com dois protocolos distintos rodando simultaneamente em diferentes regiões.

Na avaliação do médico radiologista, Dr. Vinicius Rodrigues, esse tipo de transição escalonada é compreensível do ponto de vista logístico, mas exige comunicação clara para que nenhuma mulher fique confusa sobre qual protocolo se aplica ao seu caso específico, dependendo apenas do estado ou município onde é atendida. Ele reforça que a coleta do novo exame é tecnicamente muito semelhante à do Papanicolau, podendo inclusive ser realizada pelo mesmo profissional de enfermagem já treinado para a coleta tradicional, o que facilita a curva de adaptação dos serviços.
O que muda na faixa etária e na frequência recomendada de rastreamento?
As novas diretrizes brasileiras mantiveram o rastreamento voltado para mulheres entre 25 e 64 anos, mas alteraram substancialmente o intervalo entre exames quando o resultado do teste molecular é negativo, passando de três para cinco anos. Quando o teste detecta a presença do vírus, a conduta seguinte passa a depender da genotipagem específica encontrada, já que alguns subtipos de HPV, como o 16 e o 18, estão associados a risco consideravelmente maior de progressão para lesões precursoras do câncer.
Para o Dr. Vinicius Rodrigues, essa capacidade de identificar o subtipo viral específico é um dos maiores ganhos do novo protocolo, já que permite direcionar de forma mais precisa o acompanhamento clínico necessário, em vez de tratar todo resultado positivo da mesma forma, independentemente do risco real associado a cada variante do vírus.
Por que essa mudança de protocolo importa tanto para a saúde pública brasileira?
O câncer de colo do útero já foi o terceiro tipo mais incidente entre mulheres no país em levantamentos recentes do Instituto Nacional de Câncer, com milhares de óbitos registrados anualmente, apesar de ser uma doença amplamente evitável quando o rastreamento funciona bem, combinado à vacinação contra o HPV. A expectativa da comunidade científica é que a combinação entre alta cobertura vacinal e rastreamento organizado com teste molecular possa colocar a eliminação dessa doença como meta alcançável em algumas décadas.
Assim, o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que rastreamento e vacinação são estratégias complementares, e não concorrentes: a vacina previne a infecção pelo vírus antes que ela aconteça, enquanto o rastreamento identifica precocemente quem já foi infectada e precisa de acompanhamento clínico mais próximo. Para ele, comunicar bem essa diferença ao público é essencial para evitar que qualquer uma das duas estratégias seja negligenciada em favor da outra.
A transição do Papanicolau para o teste molecular de DNA-HPV mostra como a medicina preventiva brasileira é capaz de incorporar avanços tecnológicos relevantes, mesmo diante da complexidade logística de um sistema de saúde tão heterogêneo quanto o do país. Trata-se de uma mudança que, mais cedo ou mais tarde, deve se tornar padrão em todo o território nacional.
Enquanto essa implementação avança estado por estado, a orientação mais segura para qualquer mulher continua sendo simples: manter o acompanhamento ginecológico em dia e perguntar diretamente ao profissional de saúde qual protocolo de rastreamento já está disponível em seu município, sem deixar de comparecer ao exame independentemente de qual dos dois métodos ainda estiver em vigor localmente.